
Uma tragédia deve usar da verossimilhança para provocar horror e piedade, já dizia o velho Aristóteles. Ao sair da peça O Filho, em cartaz no Teatro Vivo, em São Paulo, peguei a marginal com a sensação clara de que tinha acabado de presenciar, sem dúvida nenhuma, UMA TRAGÉDIA.
A montagem dirigida por Léo Stefanini realmente comove o público. O tema central, suicídio e sofrimento psicológico na adolescência, é forte e mexe com o coração da plateia. Muitas pessoas saíram emocionadas. Gabriel Braga Nunes e Andreas Trotta estão muito bem, entregando presença cênica e emoção. Uma pena que essa entrega, porém, destoe do tom displicente da montagem.
Algumas escolhas cênicas simplesmente não funcionam. Um exemplo evidente é o número de vezes em que os personagens entram em cena calçando sapatos, para indicar que estão chegando ou saindo: uma ou duas vezes passa; quatro já é bagunça. O gesto, repetido sem propósito dramático, chama atenção para a encenação, e não para a história.
O cenário de O Filho é simples: sofá, cadeira e um aparador com copos e fotos. Nada muda quando a narrativa migra da casa do pai para a casa da mãe. Até aí, tudo bem, o palco pode ser tudo. O problema está na execução do recurso que deveria organizar esses deslocamentos.
A mudança de ambiente é marcada por letreiros projetados, onde, após uma mudança na luz, lemos: “Casa do meu pai.”/ “Casa da minha mãe.” O uso da primeira pessoa sugere que estamos acompanhando o ponto de vista do filho, certo? Não! Algumas cenas depois, surgem outros tipos de cartelas: “Hospital.” / “Dois anos depois.” O recurso abandona sua própria lógica, quebrando a coerência interna.
O drama escrito por Florian Zeller é moderno e realista. Para esse tipo de texto, uma tradução mais natural funcionaria melhor. Aqui, o diálogo soa por vezes afetado, o que prejudica a imersão em uma história que depende justamente do naturalismo e da verossimilhança.
Apesar dos problemas técnicos, o público responde. O drama funciona porque toca em temas universais: a dificuldade de comunicação entre pais e filhos, a culpa que acompanha a parentalidade e o conflito de gerações. Durante a sessão, ouvi risos nervosos, suspiros e muitos comentários baixinhos. Ponto positivo.
Desde Sófocles, a tragédia é o gênero em que os personagens decaem por conta de seus próprios erros, e sofrem as consequências disso. Seguindo a convenção, o mesmo acontece O Filho: os pais, ao tomarem uma decisão equivocada, selam seu destino.
O problema é que O Filho falha ao lidar com as consequências. No final da narrativa, vemos o desfecho do ponto de vista do pai, enquanto a mãe simplesmente desaparece, sem fechamento algum.
Pra completar, uma frase de efeito encerra a peça: “A vida continua.” Esquisito e fora do tom. Me senti diante da Diná, de A Viagem, só faltou tocar Roupa Nova.
Se a dramaturgia de Zeller chega ao espectador, o conjunto da obra deixa a desejar. A sensação é que O Filho funciona apesar da encenação, e não através dela.

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