Bárbara Heliodora da Baixada Santista

um blog fora de época, por Roberta Taka Bernardo


Titanique, O Musical é MUITO BOM, mas não é pra todo mundo.

Ainda bem que é pra mim.

E se a Céline Dion estivesse presente no Titanic e fosse testemunha (e protagonista!) dos eventos entre Jack e Rose? Essa é a premissa do musical off-Broadway Titanique.

Pra começar essa conversa, vocês precisam entender que existe uma subcultura queer no submundo do teatro musical em que esse tipo de paródia é o pão de cada dia. Em todo o Ocidente, em teatros minúsculos, drag queens e mulheres-viado performam versões galhofeiras de musicais conhecidos, criam narrativas com pontos de vista alternativos para histórias famosas e interpretam personagens icônicos da cultura LGBT. É um tipo de teatro que exige muitas referências, tanto de quem cria quanto de quem assiste. Ele faz piada com o próprio teatro, com figuras da mídia e com os eventos que circulam no zeitgeist do momento.

Titanique, O Musical é o que acontece quando esse tipo de brincadeira é levado a sério por profissionais muito competentes. A versão original da peça nasceu em 2022, criada por dois atores com currículos parrudos em peças “sérias”, como Mudança de Hábito e Wicked. Começou como uma piada entre amigos e virou um sucesso nos Estados Unidos, chegando ao West End em Londres e — AINDA BEM — na Rua Frei Caneca, aqui no Brasil, com uma equipe não menos genial, estrelando a MONSTRA SAGRADA Alessandra Maestrini como Céline Dion.

Dirigido por Gustavo Barchilon, o musical surpreende ao unir humor de nicho e musicalidade on point. Com um elenco que manda muito no gogó e nas piadas, Titanique conquista pela comédia e pela alta qualidade musical. As músicas de Céline Dion não foram traduzidas, e muitas nem são tão conhecidas assim pelo público brasileiro, mas, mesmo assim, a peça se conecta com a plateia por meio de piadas que conversam com a nossa realidade.

Seguindo mais ou menos a linha do tempo do filme de James Cameron de 1997, acompanhamos a história guiados pelos comentários de Céline, que participa ativamente da narrativa e nos leva a uma suspensão de descrença non-sense que é um sopro de ar fresco no meio de tantas peças que se levam tão a sério. É teatro!

Giulia Nadruz vive uma Rose irônica e engraçadíssima. Valéria Barcellos entrega uma Tina Turner/Iceberg perfeita. Talita Real serve humor e vozeirão como Molly Brown. Outro destaque é Luis Lobianco, nosso querido Freitas de Vale Tudo, que interpreta a mãe de Rose e levanta a plateia com um número interativo realmente engraçado, algo raríssimo até entre quem se diz comediante profissional.

Honrando a cultura queer que dá origem ao musical, o final traz um Lip Sync Battle, apresentado por Tina Turner, que inevitavelmente lembra Mama Ru, entre Jack e Carl pelo coração de Rose. Eles não têm medo do ridículo, riem de si mesmos e nos levam na gaita até o fim. É muito bom.

Se você consome e conhece cultura pop, gay, descolada, millennial, o musical é must see. Se você não está por dentro disso tudo, pode se afundar no mar de referências, mas aí, o problema é todo seu.

Amei.



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