Quando comecei a frequentar teatro compulsivamente, uma das coisas que mais me atraiu foi o fato de que ali, naquele momento, somos obrigados a sustentar a presença. Sem rolar o feed, sem responder mensagens, sem procurar a próxima piadinha pra postar nos stories. Esse exercício, pra mim, que sou da geração Z, é bastante desafiador. Mas também é muito bom quando, diante de um espetáculo, a gente simplesmente não sente falta do TikTok.

Foi exatamente assim que me senti assistindo A Vida Passou Por Aqui, uma peça que faz um retrato sensível sobre a amizade. Há quase dez anos em cartaz, o texto, vencedor do Prêmio APTR e indicado ao Bibi Ferreira de dramaturgia original, é uma verdadeira preciosidade. Claudia Mauro concebeu uma dramaturgia elegante, engraçada e muito bem amarrada.
Silvia, uma servidora pública aposentada, sofre um AVC e relembra momentos da sua vida durante as visitas de Floriano, um amigo de toda uma vida, que anima seus dias na casa de repouso. Enquanto os dois conversam, conhecemos a trajetória de cada um e nos apaixonamos por personagens que parecem absolutamente reais.
Eu não sou o público-alvo de tudo o que assisto e, por isso, gosto sempre de observar as pessoas na plateia. Na minha sessão de A Vida Passou Por Aqui, havia uma senhora que não parava de cochichar com a amiga ao lado. Ela entendia referências que eu não entendia e, enquanto ouvia as histórias de Floriano, parecia rememorar a própria vida. Esse não é exatamente o comportamento esperado no teatro, mas achei bonita essa interação. Ela ria e se divertia com as palhaçadas de Edio Nunes como se fosse, ela mesma, uma colega dos velhos tempos de gafieira .
Edio Nunes, aliás, é uma joia. Bailarino de classe, sambista, carismático até dizer chega. Quero muito vê-lo brilhar mais em papéis de destaque. Ele entrega TUDO em cena e não é ofuscado nem pela presença MAJESTOSA de Cláudia Mauro, que transita com naturalidade entre a fragilidade de uma senhora doente e a vivacidade, e libido, de uma mulher de meia-idade que dança, fala besteira e dá risada. É lindo de ver.
O ponto alto, para mim, é a dignidade com que Silvia é tratada. Em um tempo em que se fala tanto sobre a escassez de papéis para mulheres com mais de 50 anos, é difícil encontrar um texto que as valorize intelectual e estéticamente. Claudia Mauro dá conta disso com muita elegância: cria uma personagem que não se emburrece para ser engraçada. Muito pelo contrário, mesmo em processo de demência, o humor de Silvia surge justamente nos momentos em que ela retoma a lucidez. É ali que vemos, com clareza, a mulher inteligente que ela é. Um olhar fresco! Não costumamos ver personagens idosas sendo retratadas assim.
A direção, o cenário e a iluminação são simples e cumprem muito bem o seu papel, demonstrando com sutileza a passagem do tempo que embala a narrativa. Nada está fora de lugar, nem os números de dança, que surpreendem pela desenvoltura e pela sintonia entre os bailarinos. A dança, além de representar um ponto de conexão entre Silvia e Floriano, funciona também como metáfora da vida passando. Belíssimo.
Eu não escolhi assistir a essa peça. Fui levada totalmente no escuro, sem expectativa alguma, mas acho que deu pra perceber que eu amei, né?

Deixe um comentário