Pensei em não escrever sobre Matilde. A peça é uma graça, mas acontece que, quando eu tinha dez ou onze anos, fiquei obcecada pela Malu Valle depois de assistir Senhora do Destino. Ainda não se utilizava a palavra stalker naquela época, mas o que eu fiz foi basicamente isso. Encontrei o número de telefone dela na internet e liguei pra casa dela. Ela atendeu, uma querida, e me ouviu falar sei lá o quê por um tempão. Mais de uma vez. Que paciência.
Matilde é uma peça que tem muito a ver com Malu porque Matilde foi escrita PARA ela. Então sinto que, ao falar de Matilde, falo de Malu, e isso me pega num lugar infantil. Tenho receio de escrever algo que ela não vai gostar e ver minha eu-criança me olhar feio, com vergonha da eu-adulta.
Mas já que me propus a criar esse blog e me auto denominei a sucessora natural da velha Bárbara, preciso honrar o seu nome e escrever com imparcialidade e técnica.
Matilde nasceu a partir de uma ideia de Paulo Gustavo, amigão da Malu Valle. A ideia era fazer uma peça em que duas pessoas de gerações diferentes estivessem em cena. Paulo Gustavo iria dirigir, mas, infelizmente, não deu tempo. O texto foi escrito pela Julia Spadaccini e quem dirigiu essa montagem foi Gilberto Gawronski. Além de Malu, temos em cena o belíssimo Ivan Mendes e um peixe beta de papel machê que também faz o papel de interlocutor da protagonista.

A peça começa com o apartamento vazio. Com luzes baixas, ouvimos a voz de Rita Lee cantando “Minha Vida”, o que cria uma vibe de nostalgia e nos faz intuir que Matilde tem toda uma vida que ficou para trás. Matilde entra em cena e conversa com seu peixe beta, que ora responde com glugluglu, ora não responde nada. Essa falta de coerência na vocalização do peixe beta me deixou confusa.
Outra coisa que me incomodou foi o fato de que todas as notícias que li sobre Matilde apresentavam a peça como uma narrativa de empoderamento feminino para mulheres com mais de 60 anos. Mas, sem militância aqui, a sensação que eu tive é que Matilde representa uma mulher de 60 anos de 20 anos atrás. Matilde é inocente, meio amargurada e solitária. Só fala com seu peixe beta e com sua amiga, Odete, que também vive sozinha em seu apartamento, sem jamais sair de casa… ATÉ QUE o príncipe encantado aparece com 30 anos a menos e um cigarrinho de maconha que irá transformar a vida de Matilde.
Eu não sei vocês, mas muitas mulheres de 60 anos que eu conheço são MACONHEIRÍSSIMAS e jamais se surpreenderiam com um beckzinho na sala de casa. Elas foram jovens na década de 80. Maconha era light para época. Achei estranho, mas funcionou para o público, que deu gostosas risadas ao ver Matilde fumar seu beck ouvindo um reggae enquanto a iluminação deixava o cenário todo vermelho, verde e amarelo.
O uso da música, aliás, é algo que também me pegou de um jeito estranho. Os personagens cantam muito para uma peça que não é um musical. Por vezes, a impressão que fica é que o som não estava dimensionado para esse tipo de performance. Mas mesmo assim, eles são fofos, e a gente se apaixona pelo casal. E como vocês devem saber, meus amigos, a tendência, quando estamos apaixonados, é relevar tudo.
No final, Matilde é uma delícia. Os problemas técnicos desaparecem diante da química do casal e da performance irresistível de Malu e Ivan, um casal gostoso de acompanhar e torcer. Outro ponto alto é o cenário da peça: um trabalho lindo que usa o conceito do aquário com garrafas PET, trazendo a ideia de que aqueles personagens estão rodeados por água, como peixes. Além disso, Bartô, o peixe beta, mora em um aquário idêntico ao cenário da peça, uma gracinha de maquete que fica o tempo inteiro posicionado de frente para a plateia. Lindo! Chiquérrimo!
Ao final do espetáculo, Matilde percebe que sua vida não acabou. Ela se transforma em uma mulher que tem coragem de viver um amor no agora, sem pensar no que pode dar errado depois. Achei engraçado que, no final da sessão, ouvi algumas mulheres falando: “isso nunca ia dar certo na vida real!”. Ainda bem que é teatro!

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