Bárbara Heliodora da Baixada Santista

um blog fora de época, por Roberta Taka Bernardo


Popozão e Girafa Feia entregam tudo em montagem de Beckett – Crítica de Fim de Partida

Voltei.

Semana passada, tive o privilégio de assistir à montagem de Fim de Partida, dirigida por Rodrigo Portella, no Sesc Pinheiros.

Super alegórico, o texto de Samuel Beckett não entrega uma historinha convencional com começo, meio e fim. Ali, somos jogados no último quarto do fim do mundo ao lado de dois personagens esquisitíssimos: Hamm, um velho cego preso a uma cadeira de rodas, e Clov, seu serviçal eternamente curvado, incapaz de sentar e condenado a uma rotina exaustiva de obediência a Hamm, que é, ao mesmo tempo, patrão, pai adotivo e figura de dominância.

Tendo apenas a palavra como ferramenta de poder, Hamm controla o eterno sofredor Clov, encenado por Guilherme Weber com um estilo meio clown triste que contrasta muito bem com o tom debochado do Hamm de Marco Nanini. Em cena, Nanini vai além da ironia rude e seca que costuma marcar muitas montagens de Beckett. Em seus mandos e desmandos, nosso eterno Popozão domina o texto poético e labiríntico do dramaturgo com uma maestria que só um ator de seu calibre conseguiria sustentar. É o monstrão, não tem jeito.

O mesmo vale para a babilônica Helena Ignez, musa do cinema nacional, diretora de filmes belíssimos e figura icônica com seus cabelos vermelho-cereja inconfundíveis. Em sua curta participação como Nagg, a diva emerge da lata de lixo como uma entidade onírica fruto do inconsciente de Hamm, trazendo uma leveza absolutamente encantadora para o palco. Seu parceiro de cena, o genial Ary França, protagonista do meu filme favorito da vida, Durval Discos, vive um Nell meio hipongo e absolutamente engraçado, adicionando respiros de humor à narrativa densa e claustrofóbica de Beckett.

O babado é que, nessa montagem de Fim de Partida, mesmo com um elenco de gigantes, quem realmente rouba a cena é a cenografia da sempre genial Daniela Thomas. O espaço interior escuro, com duas janelas, descrito por Beckett no texto original de 1957, se transforma aqui em um personagem expressivo. A caixa de madeira criada para a encenação não tem altura suficiente para que Clov fique totalmente de pé. Essa impossibilidade física produz um desconforto muito mais potente do que a simples ideia de um corpo curvado. As laterais vazadas permitem jogos de sombra belíssimos, enquanto a abertura superior cria a sensação de um telhado de um jeito chiquérrimo.

Fim de Partida, que em inglês se chama Endgame, carrega justamente a ideia de fim de jogo. Parece óbvio, mas foi algo que não percebi no meu primeiro contato com a obra. A loucura é que o jogo nunca termina. Entre memórias, lembranças e frases sobre um fim que jamais chega, a narrativa se enrola em um loop que vai do nada a lugar nenhum, mas de um jeito bom. Beckett sabe disso e, em determinado momento, brinca metalinguisticamente: “Ah, será que estamos perto de fazer algum sentido?”. Isso seria terrível.

No simpático coquetel oferecido na estreia da peça, tive a oportunidade de bater um papo com Guilherme Weber, o Clov. Depois de algumas taças de espumante, perguntei se as pessoas ainda o chamavam de “girafa feia”, apelido que recebeu de uma criança quando interpretava o vilão na novela Da Cor do Pecado. Ele respondeu que, de vez em quando, aparece alguém comentando isso quando ele posta foto no Instagram, e que imediatamente bloqueia o engraçadinho. Foi mal, girafa. Não resisto a uma referência pop.

Sigamos.



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